25/06/2017

COMO EU AQUEÇO - VADIM REPIN

Foto tirada do site oficial de Vadim Repin
(for the English version, scroll down)

Toc toc toc. De dentro do camarim na Sala São Paulo uma voz disse algo que não deu pra entender. Seria russo? Segundos depois o violinista Vadim Repin abriu a porta e olhou para a gente “Sim?”. Martin, o homem gentil que me levou até ali, nos apresentou e me deixou explicar quem sou e a razão da entrevista. Terminei dizendo “Será rápida e estou pronta”, mostrando meu telefone.
O solista internacional então nos disse: “Fazemos essa rapidinho e depois eu faço a da televisão”. Ele me levou até um par de cadeiras entre um espelho e o banheiro, e tivemos o seguinte papo:




Helena Piccazio - Então, como você aquece? É diferente para apresentação e para estudo?

Vadim Repin - Bom, essa é uma pergunta traiçoeira. Eu não gosto de realmente aquecer, porque no palco você aquece depois de 5 notas, então... Eu acho traiçoeiro... porque quando eu era bem mais novo, 20 anos atrás, eu aquecia para realmente estar no pico de algo. Mas aí eu notei que o pico já tinha passado antes de eu entrar no palco, então você tem que economizar muitas coisas. Por exemplo, se você está sempre em turnês, não precisa aquecer tanto. Chamo isso de 2 tipos diferentes de formas. Uma forma é quando você está estudando bastante todos os dias, então está em uma boa condição. A outra forma é quando você toca concertos a todo segundo, toda noite. É uma condição diferente e que também é muito importante, uma condição psicológica. Para essa forma eu geralmente uso 5 minutos antes de entrar no palco, talvez 7. Faço um pouco de escalas, um pouco de cordas duplas, e algo bem lento. E não toco nada forte ou rápido, apenas lento.

Helena - E nesses 5 minutos, qual o seu objetivo?

Vadim - Apenas colocar a concentração na afinação, quando você toca devagar, você tem mais tempo para se concentrar, porque são músculos. Apenas toco bem calmo, sem excessos, cuidadosamente ouvindo para colocar o foco nas posições, para afinação.

Helena - E essa concentração te coloca no estado para ir ao palco tocar?

Vadim - Fisicamente para as mãos, sim. Mas aí depende do que você tem que tocar, que tipo de repertório, se é um recital ou concerto. Aí tem diferenças, você fica mais ou menos agitado.

Helena - E a mente? Você precisa de algo para concentrar a mente?

Vadim - Bom, se você fica totalmente sozinho antes de tocar já é bom o suficiente para a concentração. Evito falar muito ao telefone, não faço outras coisas, me concentro no concerto.

Helena - Você faz algo para o corpo, como alongar ou outros exercícios sem o violino?

Vadim - Eu gosto de praticar esportes como correr ou andar de bicicleta sempre que posso. Mas não imediatamente antes de tocar.

Helena - Agora uma pergunta que adoro fazer: você tem algum livro que é especial para a sua arte, algum livro que te inspirou ou te ensinou algo?

Vadim - Gosto muito da biografia do Piatigorsky, suas cartas. E eu gosto de Fausto, de Goethe, esse é o meu livro preferido sobre arte em geral, sobre a vida. Eu acho que é uma das obras mais profundas, onde todo mundo consegue encontrar visões interessantes sobre quais as coisas mais importantes da vida.

Helena - Tem algo que você gostaria de dizer aos violinistas brasileiros?

Vadim - Não sei… Apenas sejam cuidadosos com o estudo. 6 horas de estudo em um só dia é demais para os músculos, é demais para a mente. Tentem ser mais concentrados e quando passarem tempo com o instrumento, não fiquem só tocando sem rumo. Ou estabeleçam metas claras ou busquem entender o ritmo certo. Isso é muito importante numa peça, as conexões entre os tempos. Devem ser muito lógicas. Em muitas tradições as pessoas mudam os andamentos do nada, de repente tocando 2 vezes mais rápido ou mais lento por razão nenhuma. Então, se não está escrito na partitura, tente achar essa continuidade lógica, esse é um dos pontos mais importantes.

Helena - Muito obrigada pela entrevista!

Depois dessa conversa e de 4 selfies, no caminho de volta até a porta, eu expliquei brevemente esse blog e meu interesse em psicologia da performance. Ele disse com um sorriso: “Você deveria ler aquele livro do Jogo de Tênis”. Sorri de volta: “Eu li! Esse livro mudou minha vida!”. 
Fica a dica! ;-)



English

HOW I WARM UP - VADIM REPIN

Knock knock. From inside a voice said something I couldn’t understand. Was it russian? Few seconds later Vadim Repin opens the door of his dressing room at Sala São Paulo and looks at us “Yes?”. Martin, the kind gentleman who brought me there, introduced us and let me explain who I was and the reason for this interview. I finished with “It's short and I’m ready”, waving my phone. 
The international violin soloist then said “we do it now quickly and then I do the television one”. He lead me to a pair of chairs between a mirror and the bathroom, and we had the following chat:

Helena Piccazio - So, how do you warm up? Is it different for performance and practice?

Vadim Repin - Well, this is a tricky question. I don’t like really warming up, because on the stage you warm up after 5 notes, so... It is tricky... because when I was much younger, 20 years ago, I was warming up to really be at the pick of something. And then I noticed that the pick was gone before I went on stage, and you have to save a lot of things for the performance. For example, if you are constantly in a concert tour, you don’t need to warm up so much. I call it 2 different kinds of forms. One is when you practice a lot everyday, so you are in a good condition. The other form is when you play concerts every second or every night, so it’s a different kind of condition, which is also very important, the psychological condition. So for this one I usually take 5 minutes before stage, maybe 7. I do a little bit of scales, a little bit of the double stops, and something very slow, and I don’t play forte or fast, just slow.

Helena - And in this 5 minutes what is your goal?

Vadim - Just to put the concentration on intonation, when you play slow you have more time to concentrate, because it's muscles. So just very quiet, without excess, and carefully listening to make a focus on the positions, for intonation.

Helena - And this concentration puts you in the right state to go out and play?

Vadim - Physically for hands, yes. But then it depends on what you play, what kind of repertoire, if it’s a recital or a concerto. Then it's different, so you get yourself a little more or less excited.

Helena - What about the mind, do you need something to concentrate the mind?

Vadim - Well, if you are all by yourself it’s good enough for concentration. So I don’t speak too much on the phone, I don’t do other things, I'm concentrating on the concert.

Helena - Do you do something for your body, like stretching or other exercises without the violin?

Vadim - I like to do some sports like running or bicycle, whenever I have the chance. But not right before playing.

Helena - Now one question I like to ask everybody: do you have a special book that is special for your artistry, a book that inspired you or taught you something?

Vadim - I like very much Piatigorsky's biography, his letters. And I like Faust, by Goethe, that’s my favorite book about art in general, about life. I think it's one of the most profound pieces where everybody can find some interesting views on what is most important in life.

Helena - Is there anything you would like to say to Brazilian violin players?

Vadim - I don’t know… Just be careful with practicing. 6 hours of practice in one day is too much on your muscles, too much on your head. Try to be more concentrated and when you spend time with the instrument, don’t just play, make either goals or try to figure out the right rhythm. This is very important in a piece, the connections of tempi. They should be very logical. In a lot of traditions, people change tempos out of nowhere, suddenly start playing double slow or double fast for no reason. So if it's not in the music, try to find this logical continuation, that is one of the most important points.

Helena - Thank you so much for your time and words!

After this interview and 4 selfies, while walking back to the door I briefly explained my blog and interest in performance psychology. He said with a smile: “You should read the Game of Tennis book”. I smiled back “I read it, it changed my life!”. 
Sounds like a good hint! ;-)

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Esta entrevista foi possível graças à ajuda de Martin Ochs, Julio Nogueira e Isabel Arruga. Muito obrigada!
=)

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2 comentários: